MANIFESTO PELO CIRCO NO CORAÇÃO DE SÃO PAULO

Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo

Manifesto Pelo Circo no Coração de São Paulo

"O caminho é claro: para manter-se de pé, o CMC precisa crescer, e nessa urgência reside a grande oportunidade: ampliar o Centro de Memória do Circo em seu escopo institucional e programático e, em nova sede, fincada no mesmo Largo do Paissandu, fundar o Museu do Circo Brasileiro, que projetará a cultura circense do Brasil em escala internacional, oferecendo acesso qualificado à cultura, educação, entretenimento e cidadania fundamentado sobre as bases históricas do nosso circo."

A Associação de Amigos do Centro de Memória do Circo — AACMC, fundada em 2012, com a missão de dar apoio ao Centro de Memória do Circo — CMC, e fomentar a discussão sobre o fazer circense, vem a público apontar a necessidade do devido reconhecimento do papel do CMC e da necessidade de sua ampliação enquanto importante salvaguarda do Circo Brasileiro, cuja Tradição Familiar acaba de ser reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil.

Em seus 16 anos de existência, o Centro de Memória do Circo (CMC), sob a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, vem afirmando a cultura circense de diferentes maneiras: pela preservação de seu importante acervo sobre o circo, pela pesquisa histórica, artística e cultural que vem desenvolvendo e difundindo através de exposições, publicações, audiovisual; pelos espetáculos, oficinas, visitas mediadas, debates; e pelo pioneirismo da criação de uma museologia própria para o circo.

Sua localização no Largo do Paissandu, sítio histórico do circo brasileiro no centro de São Paulo, com 150 anos de tradição circense, é seu principal ponto de ancoragem, conferindo-lhe a responsabilidade de salvaguardar a memória do circo no Brasil.

No entanto, o avanço exitoso de tal atuação institucional configura, já há anos, um impasse: quanto mais o trabalho se consolida, maior se verifica a necessidade de ampliação de suas capacidades estruturais e físicas. A demanda por mais funcionários, maior capacidade técnica e espaços adequados de trabalho existe desde a fundação do CMC. Conquistas recentes reafirmam seu potencial: um robusto Plano Museológico, a digitalização e publicização do seu Acervo em site próprio e o programa SOU DE CIRCO, que concretiza uma iniciativa pioneira de formação técnica em história e museologia circenses.

O caminho é claro: para manter-se de pé, o CMC precisa crescer, e nessa urgência reside a grande oportunidade: ampliar o Centro de Memória em seu escopo institucional e programático e, em nova sede, fincada no mesmo Largo do Paissandu, fundar o Museu do Circo Brasileiro, que projetará a cultura circense do Brasil em escala internacional, oferecendo acesso qualificado à cultura, educação, entretenimento e cidadania fundamentado sobre as bases históricas do nosso circo.

O presente manifesto detalha, a seguir, a importância do circo na cultura nacional, a história do CMC e seus desafios atuais e, por fim, uma concepção para o Museu do Circo Brasileiro.


O CIRCO BRASILEIRO

O Circo Brasileiro

O circo chegou ao Brasil com famílias vindas de diversos lugares do mundo, principalmente da Europa, que aqui chegaram integrando companhias artísticas que se apresentavam em turnê pelo mundo. Algumas dessas famílias por aqui ficaram e, quando começaram a viajar, chegando a regiões longínquas, onde só mesmo o circo chegava, foram absorvendo culturas, artes e artistas locais. Ou seja, o circo foi abrasileirando-se e acabou por se tornar coisa nossa. Antes da internet e antes mesmo da televisão, o circo promoveu intercâmbio entre campo e cidade e entre regiões que mal se conheciam. Com vocação antropofágica — no sentido modernista —, devorou culturas diversas sem perder seu caráter universal: o picadeiro, a lona, a tradição familiar e nômade. E acabou por criar e consolidar um novo gênero de espetáculo circense, o Circo-Teatro, que prima por apresentar circo na primeira parte e teatro na segunda, até hoje, o mais importante teatro popular da história do nosso país, que proporcionou às companhias circenses maior estabilidade nas cidades e alçou o palhaço ao papel de protagonista do espetáculo.

Largo do Paissandu — onde o circo se encontra

A primeira notícia do circo no Largo do Paissandu data de 1887, com a publicação num jornal de época de um cartaz anunciando a temporada do Circo Irmãos Carlo. Meio século depois, o circo continuava presente no Paissandu, com a longa temporada ali realizada, entre 1925 a 1929, pelo Circo Alcibíades, cujo proprietário, Alcibíades Pereira, era palhaço e fazia dupla com outro palhaço, este a grande atração do circo, o Piolin (Abelardo Pinto). Foi justamente nessa temporada que os Andrade — Mário e Oswald —, além de Tarsila do Amaral, entre outras personalidades do modernismo paulista, “descobriram” Piolin e o apontaram como o mais importante ator do país, e o circo, o berço do teatro nacional. Em 1929, os modernistas comemoraram o aniversário de Piolin com um almoço chamado “Festim Antropofágico”, cujo principal prato simbólico foi o próprio aniversariante. Em 1972, nos festejos do cinquentenário da Semana de Arte Moderna, o estado de São Paulo decretou que 27 de março, dia do aniversário de Piolin e da homenagem que recebeu de seus amigos modernistas, passaria a ser o Dia do Circo, data hoje comemorada em todo o país.

Café dos Artistas

Mesmo quando os circos pararam de armar suas lonas no Paissandu, o circo continuou presente no largo através do encontro entre a classe circense que ali ocorria todas as segundas-feiras, dia de folga da categoria, num encontro que chegou a ocupar várias quadras, restaurantes e bares, chamado Café dos Artistas ou simplesmente Café. Não se sabe ao certo quando o Paissandu passou a sediar esses encontros, provavelmente na entrada do século XX, até o final das primeiras duas décadas do século XXI.

O Circo Brasileiro O Circo Brasileiro


CENTRO DE MEMÓRIA DO CIRCO

Centro de Memória do Circo O Centro de Memória do Circo — CMC — nasceu com a missão de salvaguardar importante acervo sobre o circo brasileiro, reunido pela pesquisadora Verônica Tamaoki e que, entre outras raridades, contava com a coleção Circo Nerino (1913-1964) e Circo Garcia (1928-2006). E ao se instalar no Largo do Paissandu, o CMC tomou também para si a responsabilidade de salvaguardar o sítio histórico do circo brasileiro que ali se encontra.

Acervo

Assim que abriu suas portas, o CMC passou a receber acervos, em sua maioria oriundos do circo, seja de famílias notáveis como a Seyssel e Pereira, seja de artistas desconhecidos como o faquir Yorga.

E o acervo do CMC, de caráter principalmente arquivístico, com peças gráficas, fotografias, notícias da imprensa, partituras musicais etc., foi transformando-se pouco a pouco num acervo museológico com os documentos tridimensionais — aparelhos, ferramentas, indumentárias, objetos de guarda e itinerância — que foram chegando.

Hoje o acervo do CMC possui por volta de 80 mil documentos, reunidos em coleções e acondicionados em três reservas técnicas.

Exposições

No final de 2012, o CMC inaugurou sua exposição de caráter permanente “Hoje tem espetáculo” que ocupa toda a sobreloja da Galeria Olido e, no piso térreo, a Sala Mário de Andrade. Frequentemente atualizada, a exposição já foi visitada por mais de 300 mil pessoas. Ao longo da sua trajetória, o CMC também apresentou diversas exposições temporárias sobre o circo em sua sede e também fora dela, como “O Circo Modernista” que circulou entre Centros Culturais da Secretaria Municipal de Cultura.

Publicações, cursos, debates, cortejos

Com mais de 6 publicações, entre revistas e livros, dos quais se destaca a edição do Diário de Polydoro, considerado espécie de certidão de nascimento do circo brasileiro, o CMC promove atividades diversas como cursos, palestras, debates, visitas mediadas e espetáculos.

SOU DE CIRCO

Da necessidade não apenas de preservar os documentos do acervo mas também de conceituar esses documentos histórica, artística e tecnicamente nasceu o SOU DE CIRCO — Programa de Formação e Experimentação Profissional em Museologia, Pesquisa e História do Circo voltado para jovens circenses entre 18 e 29 anos. Desde sua primeira edição em 2018, o programa une teoria e prática: os participantes aprendem fazendo, catalogando acervos, desenvolvendo ferramentas de pesquisa e cuidando diretamente da memória documentada e viva. A cada edição, o SOU DE CIRCO aprofunda metodologias e aponta para a criação de uma museologia própria do circo, construída de dentro para fora e amparada no trabalho com os acervos próprios do circo.

Centro de Memória do Circo Centro de Memória do Circo


MUSEU DO CIRCO BRASILEIRO

Museu do Circo Brasileiro

O Museu do Circo Brasileiro nasce da convergência de fatores que tornam sua criação um imperativo: a importância histórica do circo no Largo do Paissandu; a necessidade de dar sequência ao trabalho consolidado do Centro de Memória do Circo e a oportunidade de oferecer à população do centro de São Paulo um equipamento cultural que aproveite a natureza dinâmica e social das artes circenses.

Para além da ampliação física do CMC, o Museu do Circo representará uma expansão radical de seu conceito. Sua proposta organiza-se em três frentes integradas: Memória, Educação e Difusão — que serão articuladas e sobrepostas, unindo a preservação da memória material e imaterial à formação artística circense, à técnica museológica e à difusão artística, todas sob uma mesma instituição.

Na frente de Memória, o Museu abrigará e ampliará o acervo de preservação e pesquisa do CMC, em reservas técnicas adequadas e salas de trabalho especializadas. Na frente de Educação, além de curso de história, pesquisa e museologia circense, evolução natural do Programa SOU DE CIRCO, o CMC abrigará uma escola de iniciação às artes circenses para crianças e jovens de 7 a 16 anos de baixa renda, e cursos livres de qualificação. Na frente de Difusão, o Museu se abrirá à cidade com exposições — temporárias e permanente — de escala internacional, além de mostras temporárias, espetáculos de circo e teatro, cinema, palestras e cursos livres.

Museu do Circo Brasileiro

O Museu do Circo Brasileiro será, enfim, não um lugar de guarda, mas um lugar vivo, em que a memória do circo será protegida e conduzida ao futuro pelos atos contínuos, coletivos e coordenados de pesquisar, aprender, expressar e preservar a nossa cultura circense.

Museu do Circo Brasileiro Museu do Circo Brasileiro Museu do Circo Brasileiro


AACMC

AACMC

A Associação de Amigos do Centro de Memória do Circo (AACMC) foi fundada em dezembro de 2012 com a missão de apoiar o Centro de Memória do Circo e fomentar a reflexão sobre o fazer circense. Entre suas principais realizações estão o Festival Internacional do Circo (FIC), realizado em quatro edições entre 2018 e 2022, e o programa SOU DE CIRCO, voltado à formação de jovens circenses em história, pesquisa e museologia.

Gestão 2025–2027


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